



Desconhecidas para muitos, e na verdade até entre si, estas duas cidades, em países e hemisférios diferentes, representam o marco da crise econômica atual. Canarana no interior do Mato Grosso, centro-oeste brasileiro. Aurilac, na região de Cantal, sul francês. Canarana e Aurilac símbolos dos contrastes gerados pela crise.
Desde o início, a crise econômica começou a revelar que por onde passasse iria trazer a tona os enormes contrastes causados pelo livre mercado sem regulações, ou melhor, a prática exata do "laissez faire, laissez aller, laissez passer". Nitidamente foi sendo revelado, em qualquer país, os enormes contrastes existentes dentro da sociedade. Muitos ganhando pouco, poucos ganhando somas enormes, alguns falindo outros expandindo. “Canarana e Aurilac”!
Canarana, 18000 habitantes, produtora de soja e carne, tem sua economia movida basicamente pela agricultura e pecuária, responsáveis por 80% da produção da riqueza local. Devido a crise, uma das principais empresas da cidade fechou as portas, dando início a um ciclo de demissões de aproximadamente 3100 pessoas, uma estimativa otimista. A pergunta local é como sobreviver em meio a crise?
Aurilac, recentemente a prefeitura da cidade realizou em Paris uma feira de emprego na tentativa de preencher 500 vagas disponibilizadas nas empresas do pequeno município. A crise da cidade é: falta de mão-de-obra. Como aproveitar as oportunidades?
Com certeza, hoje, uma família de Canaran gostaria de mudar para Aurilac. Regiões diferentes, cenários opostos, revelando o contraste que está marcando a crise econômica do início deste século!
O avanço da exclusão social no desenho urbano de nossas grandes metrópoles é algo já conhecido por muitos dentro e fora do Brasil. E que infelizmente avança de forma arrasadora, afinal de contas, nos últimos anos deixou de ser algo específico da concentração urbana em grandes cidades, mas caminhando um pouco pelo interior do país veremos que esta realidade abrange municípios de todos os portes. Enfim, esta é uma realidade já bem conhecida por nós brasileiros e que buscamos diariamente possíveis soluções.
Por incrível que pareça, na última semana, fomos surpreendidos pela divulgação em tom de festa, feita pelo governo da elaboração de um plano de construção de 1 milhão de moradias populares em todo país. O objetivo principal seria subsidiar para as famílias de baixa renda o sonho da casa própria. Imediatamente, críticos em todo o país começaram a analisar até que ponto será real e efetivo o projeto, assim como até que ponto o mesmo está sendo mais uma jogada de marketing político para iniciar o ano eleitoral. Estão sendo questionados o cronograma temporal, a infra-estrutura inexistente que serrá necessária para servir de suporte as novas moradias, o orçamento também inexistente no caixa do governo entre outras coisas.
Porque falo da existência da surpresa diante da notícia. Nos últimos anos, vivenciamos um governo que em todo o tempo fez um marketing de um país fortalecido contra a atual crise, firmado na “igualdade” através de programas sociais. [Nada contra a execução dos programas sociais em andamento, pois são necessários]. Porém, pensando um pouco mais no cenário em questão, para mim uma coisa é certa, finalmente o governo revelou, mesmo que entre linhas, que tem consciência plena da imensidão da exclusão social no seio urbano do Brasil e o enorme déficit habitacional no país. Afinal, se planeja construir 1 milhão de moradias, é porque no mínimo existe 1 milhão de famílias que necessitam urgentemente de medidas de intervenção social.
Em um momento como este, onde o Estado revela ter consciência da real demanda de sua sociedade, é que nós cidadãos devemos agir de forma a buscar novas formas de regulação desta enorme desigualdade. Esta é raiz da proposta de uma economia solidária presente e ativa. Em que os projetos elaborados e executados vinculam-se exclusivamente no atendimento de necessidades vividas localmente pela sociedade. Diferente, do que busca suprir o mercado, através de sua especulação de auto-regulação entre demanda e oferta [a crise esta revelando que não é possível] ou um Estado “marketeiro”, que planeja superficialmente projetos para o bem-estar social, mas com o objetivo de se auto-promover politicamente deixando de lado o principal objetivo, a demanda da sociedade.
Enfim, estamos diante de mais uma oportunidade de convergir as articulações nas dimensões sociais, econômicas e políticas para trazer a realidade uma proposta visando saciar a demanda da sociedade. Se o governo assinalou com a luz verde, vamos levantar e fazer prevalecer os direitos de cidadão e regular a prática e execução deste projeto.
Sempre ouvimos falar que no Brasil o ano só começa a funcionar depois do carnaval. Para alguns setores da economia esta afirmação pode ser verdadeira, para outros nem tanto. Enfim, não é esta a discussão que quero trazer aqui, mas que podemos sim afirmar que depois desta semana os planejamentos e programas econômicos do Brasil, tanto públicos quanto privados, ficaram mais sólidos e consistentes do que antes do carnaval, isso é verdade.
Tivemos uma semana intensa, o IBGE divulgou vários índices os quais conduziram a expectativa do mercado. PIB do último trimestre de 2008, projeção final de crescimento de 2008, expansão das indústrias em todo o país, balanço de volume e renda do comércio varejista. E não ficou só nisso, a OMC também divulgou um relatório dizendo que o crescimento econômico do Brasil será favorecido pela maior concorrência dos mercados. E por fim tivemos mais um reajuste do Copom na taxa de juros do país. Para muitos, a semana foi simplesmente o respaldo que esperavam para concretizar seus planejamentos e programas de curto, médio e longo prazo dentro e fora do país.
Começando pela OMC, que divulgou no dia 09/03, um relatório, dizendo que desde seu último exame no ano de 2004, o Brasil tem perseguido a modernização progressiva de seu regime comercial. Com medidas que visam favorecer a ampliação da concorrência de seu mercado com o respaldo de seu crescimento médio nos últimos anos. Concluindo, o relatório afirma que existe ainda alguns desafios chaves a serem rompidos, porém caso o Brasil consiga permanecer neste ritmo, sem dúvida irá melhorar o nível de vida de sua população e manter seu crescimento econômico.
No mesmo ritmo da semana foi a vez do IBGE começar a divulgar seus relatórios. No dia 10/03, divulgou de uma só vez, notícias boas e ruins. A notícia boa foi o fechamento do PIB anual que revelou um crescimento de 5,1% e também o aumento do PIB per capita de 4,0%. Em contrapartida, o resultado do último trimestre do ano de 2008 revelou um recuo no PIB de 3,6%, sendo o maior recuo da série inciada em 1996, deixando todos receosos de uma possível recessão .
Em outra notícia divulgada pelo IBGE, no mesmo dia, os índices de produção industrial avançaram em 8 dos 14 locais pesquisados no período entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Com destaque para “...Paraná(6,8%), Pernambuco (6,4%), Santa Catarina (5.0%) e Rio Grande do Sul (3,6%), onde o crescimento foi acima da média nacional (2,3%). Os demais locais com taxas positivas nesse confronto foram São Paulo (2,2%), Minas Gerais (2,1%) região Nordeste (2,0%) e Pará (1,1%). Entre as áreas que reduziram a produção destacaram-se, com as quedas mais elevadas, Amazonas (-5,5%) e Espírito Santo (-4,6%).”
E fechando a semana e seu ciclo de publicações o IBGE, revelou que o Comércio Varejista do país teve um crescimento tanto no volume quanto nas receitas. O volume de vendas cresceu cerca de 6,0% em relação a janeiro de 2008 e acumulou um crescimento de 8,7% nos últimos 12 meses. Assim como a receita nominal cresceu 11,9% acumulando um crescimento de 14,7% nos últimos 12 meses.
Por sua vez, na noite do dia 11/03, o Copom decidiu por unanimidade um corte de 1,5% na taxa básica de juros Selic, levando-a para 11,25% ao ano (nível semelhante ao de março de 2008). Esta foi a segunda redução da taxa seguida e o maior corte desde novembro de 2003. Todos agora estão com os olhos voltados para o reflexo desta decisão nos níveis de inflação do país. Logo após o corte divulgado pelo Copom, alguns bancos seguiram a decisão anunciando cortes também na taxa de juros ao consumidor.
Enfim, foi uma semana intensa para qualquer um no país, desde analistas e especialistas do setor econômico financeiro aos consumidores e cidadãos brasileiros que vivem diariamente com os reflexos dos números divulgados. Uma coisa ficou bem clara, a interrogação continua no ar: em meio a crise estas decisões são suficientes para assegurar a economia brasileira longe da recessão e no caminho do crescimento econômico? Vamos aguardar e continuar acompanhando o desenrolar do ano.
Por João Baptista – jbaptistamj@gmail.com -
...A questão agora é buscar compreender
até que ponto o foco está no bem estar social
do brasileiro ou em um mecanismo que ajude
a circular a economia em tempos de crise!...
Assim eu terminei o último post neste blog.
Decidi levantar este debate aqui no blog, pois muitas vezes pensamos que a melhor saída para todos os problemas é "entrada de dinheiro" ou "aumento dos recursos", embora muitas vezes a saída está em um melhor modelo de maximização de ganhos e produção, somado a uma redução de gastos e perdas. Enfim, concordo com o ponto trazido pelo DIEESE, de que o "...reajuste deve beneficiar cerca de 43,4 milhões de pessoas..." e que também o "...aumento deve permitir a entrada na economia brasileira, de aproximadamente R$27,8 bilhões ao longo do ano, e incrementar a arrecadação tributária em R$6,8 bilhões". Com certeza, todos sabemos que renda, consumo, economia local e diversificação de produtos são itens diretamente proporcionais. Aumentando a renda, aumenta o consumo que circula a economia local propiciando uma diversificação de produtos.
Entretanto, nosso foco não pode estar somente neste ponto de vista. Sei que em tempos de crise tendemos a pensar desta forma, porém devemos olhar outra conseqüência deste aumento progressivo. Um dos efeitos que pode ocorrer é sobre os microempresários que possuem um número determinado de trabalhadores em sua empresa. Diante do aumento do salário, sua despesa com mão-de-obra logicamente irá aumentar, se neste fluxo a sua produtividade não seguir o mesmo caminho (fato bem provável, devido a alta taxa de juros, debilidade de crédito e aumento dos preços de matérias-primas), será bem certo que para equilibrar receitas e despesas, a primeira opção de corte e reajuste será na mão-de-obra. Concluindo, gerando demissões e desemprego.
Portanto, nesta linha de raciocínio, devemos permanecer de certa forma contentes com o aumento do salário mas também cautelosos com alguns efeitos que podem surgir. Afinal de contas, qual desempregado que pode consumir.







Toda vez que fecha-se a balança comercial com lucro a idéia é que com certeza haverá ou houve desenvolvimento econômico. E quando pensamos em “desenvolvimento econômico”, seguimos a idéia na qual Celso Furtado constrói sua crítica, “a idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos”. Esta semana estive lendo o relatório do Ministério de Desenvolvimento do Brasil, referente a balança comercial de exportações e importações dos municípios brasileiros, que me fez lembrar imediatamente de outro Relatório do Índice de Desenvolvimento Municipal, elaborado pela FIRJAN, divulgado em julho deste ano. Uma breve análise dos dois é suficiente para provar que entrada de dinheiro não necessariamente implica em desenvolvimento sócio-econômico. Confirmando Celso Furtado, “o aumento relativo de privilegiados...não impede, entretanto, que se mantenha e aprofunde o fosso que entre eles e a grande maioria da população...”.
Divulgado recentemente, o primeiro relatório mostra que “... 2.259 cidades brasileiras operaram no comércio exterior. De janeiro a setembro, as exportações brasileiras somaram US$ 150,868 bilhões e as importações US$ 131,212 bilhões, desempenhos que resultaram num superávit comercial (diferença entre o valor exportado e o importado) de US$ 19,656 bilhões.” De início, podemos nos surpreender com tal número, pois afinal de contas ele mostra que quase a metade do número total de municípios emancipados do país estão exportando desde matérias primas a bens de consumo, e olhando para o resultado de superávit relacionamos o lucro com desenvolvimento em tais regiões. Porém, em breve análise, perceberemos o contraste entre as regiões e a predominância da centralização e concentração de um pólo exportador.
Dentre as dez primeiras cidades que tiveram um maior fluxo de exportações no período de janeiro a setembro, encontramos quatro do estado de São Paulo, três do Rio de Janeiro, uma de Minas Gerais, uma do Pará e uma do Paraná, trazendo a tona mais uma vez a disparidade do crescimento econômico do Brasil,entre o fortíssimo eixo sudeste-sul e a debilidade de outras regiões, construindo o seguinte ranking:
1- São Paulo/SP – US$6,416 bilhões
2- São José dos Campos/SP – US$5,085 bilhões
3- Angra dos Reis/RJ – US$4,489 bilhões
4- São Bernardo do Campo/SP – US$3,392 bilhões
5- Paranaguá/PR – US$3,278 bilhões
6- Santos/SP – US$3,223 bilhões
7- Macaé/RJ – US$2,991 bilhões
8- Itabira/MG – US$2,422 bilhões
9- Parauapebas/PA – US$2,648 bilhões
10- Rio de Janeiro/RJ – US$2,530 bilhões
Paralelamente a estes dados podemos visualizar o segundo relatório, onde foi divulgado o índice de desenvolvimento municipal, que considera com igual ponderação três áreas de desenvolvimento humano – Emprego e Renda, Educação, Saúde. A pesquisa é realizada com um recorte municipal com alcance de todo o país. Sendo que o resultado final ficou resumido da seguinte maneira: “Considerando o grupo dos 100 primeiros colocados, 87 municípios estão no Estado de São Paulo. Os 13 restantes dividem-se entre Paraná (Maringá, Londrina e Curitiba), Santa Catarina (Brusque, Videira e Jaraguá do Sul), Rio de Janeiro (Macaé e Niterói), Rio Grande do Sul (Marau e Lajeado), Goiás (Catalão), Espírito Santo (Vitória) e Minas Gerais (Nova Lima).” Neste ponto, fazemos uma breve comparação entre o registro dos dez primeiros de um com os 100 primeiros de outro, pois se alinhássemos apenas os dez primeiros de cada ranking não seria possível uma visualização abrangente. Afinal de contas, no que tange a desenvolvimento municipal, o estado de São Paulo predomina nas 33 primeiras posições.
Na verdade, sabemos muito bem, que esta desigualdade na construção do desenvolvimento econômico brasileiro, a desigualdade entre regiões e a concentração de pólos econômicos não são frutos de acontecimentos recentes . Desde pós-segunda guerra mundial alinhado ao processo de industrialização vivido pelo país, o Brasil entrou em um processo de urbanização e desenvolvimento de pontos estratégicos em seu território. Resultando aglomerações espaciais e concentrações econômicas, fenômeno chamado por muitos de metropolização, que gerou nada mais nada menos do que o que os relatórios acima citados identificam em suas análises.
Este fantasma, de centralização, disparidades regionais, entrada de fluxos financeiros elevados porém baixas taxas de desenvolvimentos locais, nos assombra até hoje, afinal de contas, Angra dos Reis com um total de US$4,489 bilhões, Paranaguá com US$3,278 bilhões, Parauapebas com US$2,648 bilhões, ocupam respectivamente a 427º, 820º, 2154º posição no ranking de desenvolvimento municipal. Este breve olhar, só nos leva concluir que uma plataforma de lucro e superávit não está diretamente ligada a avanço econômico social do local. Infelizmente ainda não aprendemos com nossa construção histórica e permanecemos agindo da mesma maneira. Faz-se necessário a implantação de uma proposta de desenvolvimento conectada com a realidade de todo o país, não apenas com as regiões mais lucrativas e principalmente contextualizada com as novas questões que se abrem neste início de século. Quem sabe, uma proposta de “identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abre ao homem o avanço da ciência”.
Com trechos do livro O Mito do Desenvolvimento Econômico – Celso Furtado – 5ªEdição
Nas últimas semanas o burburinho dos principais jornais internacionais estão em torno das pautas das reuniões do G8 e da recente reunião da OMC. É notório que a postura de alguns países que conduzem os debates, ocasionam o aumento da pressão sobre a crise planetária que vivemos hoje. Na reunião do G8, um dos principais focos de discussões foi a possível inclusão de alguns países emergentes. Atualmente o bloco é formado por EUA, França, Alemanha, Japão, Itália, Canadá, Grã-Bretanha e Rússia, a proposta, conduzida pelo presidente da França juntamente com Tony Blair, seria o alargamento da bancada, tornando-se G13, com a inclusão de Brasil, China, Índia, México e África do Sul.