RELOAD

Após mais de um ano fora do ar ou simplesmente desatualizado, resolvi fazer um RELOAD do "Concepções e Conjunturas". Buscando alternar a proposta entre artigos, notícias e sempre algumas concepções e na busca pela praticidade do assunto central que motivou a criação do blog: discutir e comprender um pouco de economia. Nesta ótica, darei início hoje a uma série de publicações de vídeos explicando e sistematizando conceitos econômicos. Vídeos estes que podem ser encontrados disponíveis em diversos sites e portais, estarão agora também disponíveis em "Concepções e Conjunturas"! Sempre, é claro, divulgando a fonte para não roubar os direitos autorais de ninguém.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A responsabilidade de repensar

A responsabilidade de repensar

“...A globalização acompanhada de mercados livres, atualmente tão em voga, trouxe consigo uma dramática acentuação das desigualdades econômicas e sociais no interior das nações e entre elas.1” Assim observou Eric Hobsbawm em seu livro Globalização, Democracia e Terrorismo quando questionado sobre a pertinência de se discutir os efeitos da globalização neste início de século.


Parece estranho, neste início de 2009, trazer a tona a questão da globalização, porém na verdade ficará mais estranho ainda quando focarmos nas propostas de desenvolvimento aplicadas a cada ano entre as nações ricas e pobres. Em meio a crise que vivemos hoje, fica mais nítido ainda a acentuação e disparidades existente entre continentes, países e centros urbanos, que segundo Hobsbawm são as consequências do atual modelo utilizado.


Porém, para entendermos a estranheza e o contraste do que se é pregado e estampado diariamente em manchetes de jornais, precisamos retornar e desconstruir o conceito. E só assim buscarmos realmente pensar e elaborar propostas alinhadas com um verdadeiro desenvolvimento. Nos últimos dias, tanto no Fórum Social Mundial quanto em Davos, buscam-se diversas soluções para a questão acima abordada por Hobsbawm, porém ambos esquecem de tentar entender um pouco mais a raiz das propostas.


Longe de mim querer, com tão poucas palavras, descrever modelos econômicos e planos de desenvolvimento. Embora acredito ser realmente necessário seguir por este caminho. Quero apenas trazer a reflexão e discussão sobre o tema, conseguindo gerar uma consciência coletiva sobre o assunto já caminharemos um pouco mais em direção a igualdade, justiça e qualidade de vida que nossa sociedade tanto clama em qualquer parte do globo.


Enfim, Celso Furtado, no livro Os Ares do Mundo conduz o raciocínio de construção do conceito de desenvolvimento da seguinte forma: “...o estilo de vida criado pelo capitalismo industrial sempre será o privilégio de uma minoria. O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida, é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana. Temos assim a prova definitiva de que o desenvolvimento econômico – a idéia de que os povos pobres poderão algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável...É nesse sentido que cabe afirmar que a idéia de desenvolvimento econômico é um simples mito.2” Ou seja, todas as consequências que temos visto e vivido nos últimos 10 meses, se levarmos em conta apenas o tempo do ápice da crise econômica, tem origem basicamente neste ímpeto da inserção de modelos econômicos em regiões que não suportam tais estruturas e o desgaste ambiental de outras regiões devido a enorme ganância exploratória.


Portanto, penso ser necessário e urgente avaliarmos nosso conceito de progresso e desenvolvimento, pois o que vemos é que o modelo seguido é insustentável. Se queremos realmente conduzir e gerar uma sociedade com qualidade de vida e sem desigualdades, precisamos avaliar as nossas propostas. E assim, usar as ferramentas da ciência e tecnologia, as quais neste século XXI se apresentam de forma abundante e tão próximas, como plataformas deste desenvolvimento.


Como Celso Furtado encerra seu raciocínio dizendo que graças a focalização errônea no conceito de desenvolvimento utilizado pelo mercado hoje, desviamos “ as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abre ao homem o avanço da ciência e da tecnologia3” e focalizamos apenas em como explorar, exportar e negociar de forma mais rápido e com menos custo. “Se irá poluir, desestabilizar o ciclo humano, ah isso e questão que poderá ser resolvida outro dia!”


1Globalização, Democracia e Terrorismo, Eric Hobsbawm, 2007, pág. 11

2OS Ares do Mundo, Celso Furtado, 2ª Edição 1992, pág. 193-194

3idem

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

1492 – 2008 – a construção de um novo mundo

1492, ano que marcou o romper do horizonte, navegadores desafiando as barreiras estruturais da época, seguiram em busca de “um novo mundo”, sob a bandeira de impérios como Espanha e Portugal, continentes inteiros foram sendo descobertos e um novo mapa-mundi se construindo. Alinhado às descobertas, novas estratégias de empreendimentos modelaram-se às oportunidades que surgiram e paradigmas do impossível decaíram. Novas concepções de espaço, distância, fronteiras e barreiras ao empreendimento humano se estabeleceram, e, poucas foram as peças que participaram na modelagem de poder do globo.

O tempo passou, junto com ele, o fim dos impérios, a 1ª Guerra Mundial, Crise de 29, 2ª Guerra Mundial, Guerra Fria, queda do Muro de Berlim, e para cada fato deste, concepções foram estabelecidas e uma nova visão de mundo e forma de empreendimentos surgiram. No caso do último citado, uma nova conjuntura global começou a ser construída, e nas palavras de Fernando Henrique Cardoso, “a globalização financeira como nós vivemos hoje começou”.

Séc.XXI,11 de setembro, crise imobiliária, preços das commodities elevam-se a níveis incríveis, petróleo em alta, crise sistêmica financeira 2008, índices de desemprego históricos em países onde este não era o assunto tratado há anos, recessão na Zona do Euro e Japão, G7 já não tem todo o poder de decisão, a economia real em todo o mundo é afetada, fortalecimento dos emergentes, BRIC, queda do preço do petróleo. Fatos que qualquer um jamais imaginaria no fim do século XX, imediatamente suspeitariam que fosse um conto de ficção científica muito fora da realidade. Coisas de Nárnia ou Harry Potter, mas estas são as manchetes dos jornais durante todo este ano.

“A realidade global mostra um cenário no qual a transterritorialidade dos eventos econômicos perpassa nacionalidades. O fenômeno econômico, do ponto de vista puramente analítico, é transnacional, portanto, envolvendo várias nacionalidades, isoladamente ou associadas.” [Marcelo Milano, Geoestratégia Global, 2007]

Diante deste cenário de turbulências e crise sistêmica, encontramos algo surpreendente, o poder das transnacionais que superam obstáculos territoriais ativando a diversidade e acionando uma competitividade incrível, proporcionando a pequenas marcas um lugar no mercado global. Enquanto países prestam relatórios divulgando queda na produtividade, recuo do PIB e outros índices negativos, transnacionais como Wallmart, Coca Cola e Nike expandem em locais de atuação e lucratividade, revelando assim uma nova forma de poder no mundo.

A grande questão que devemos pensar no meio deste turbilhão é: se as transnacionais conseguiram adaptar suas estratégias e gestão de forma consistente com as questões deste novo tempo global, porque a sociedade civil e os Estados permanecem atrasados e presos em suas tomadas de decisões?

Na construção deste novo mundo, de onde virão as mãos artesanais que modelarão os ângulos das relações? Onde e quem estará à mesa das decisões?

sábado, 18 de outubro de 2008

Gerar Conhecimento - eis o desafio...




H
oje vivemos na era da informação-globalização, época em que o conhecimento foi colocado no ponto mais alto da hierarquia dos fatores que condicionam o progresso. Fazendo com que diferenças sociais fiquem cada vez mais latentes. Poucos são aqueles que adquirem um conhecimento genuíno, a grande maioria adquire apenas informação. Faz-se necessário então distinguir informação de conhecimento, isto pode ser esclarecido ao ler o trecho do livro Na Era do Capital Humano, de Richard Crawford, “...Um conjunto de coordenadas da posição de um navio ou o mapa do oceano são informações, a habilidade para utilizar essas coordenadas e o mapa na definição de uma rota para o navio é conhecimento. As coordenadas e o mapa são as "matérias-primas" para se planejar a rota do navio. Quando você diferencia informação de conhecimento é muito importante ressaltar que informação pode ser encontrada numa variedade de objetos inanimados, desde um livro até um disquete de computador, enquanto o conhecimento só é encontrado nos seres humanos. (...) Somente os seres humanos são capazes de aplicar desta forma a informação através de seu cérebro ou de suas habilidosas mãos. A informação torna-se inútil sem o conhecimento do ser humano para aplicá-la produtivamente. Um livro que não é lido não tem valor para ninguém. (...)”

Entendendo que conhecimento é sempre o processo de traduzir a informação, seguido de recosntrução, conseguimos diferenciá-lo de informação. Não é conhecimento apenas o que é produzido e depositado nas bibliotecas e centros de documentação, representando a teoria e aumentando a quantidade de informação. Mas conhecimento é contextualizado, circula e interage com a sociedade, de forma a penetrar e se tornar relevante em todas as camadas sociais.

A televisão, os jornais, as revistas e a internet disponibilizam para a população o acesso a informação, maximizando ainda mais um vácuo de valores para os que se limitam apenas ao ciclo disponível nestas mídias. Hoje uma pessoa pode ter acesso num só dia a um número equivalente de informações que um sujeito da Idade Média levaria a vida inteira para obter. Entendo que conhecimento tem muito mais haver com tradução da informação recebida em aplicação prática, do que apenas sua obtenção. Quero citar o que Pascal já dizia no século XVII: “Não se pode conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo sem conhecer as partes” esta é exatamente uma proposta para hoje. Para ultrapassar o ritmo desta era, é necessário compreender este princípio e fazer com que nossas iniciativas transformem-se em respostas para os questionamentos atuais, ou seja, gerando um conhecimento pertinente trabalhando com interdisciplinaridade.

“Educação com base
em Conhecimento e
não Informação”

Tudo porque as instituições hoje em dia, sejam estatais, privadas ou não-governamentais, estão tão preocupadas em gerar informação para a sociedade e suprir o vácuo que o sistema tem gerado, que esquecem de mostrar através de iniciativas, como traduzir estas informações em prática, o que realmente é conhecimento. Alimentando o ciclo de formar recursos humanos para empregos do sistema e não desenvolvimento humano em sua reais vocações.

As atuais propostas de trabalho precisam andar em um outro ritmo. Estou seguro que utilizando protótipos inovadores poderemos sair da encruzilhada que estamos parados, cumprindo o pleno exercício de nossa função ética, moral e socialmente relevante.

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Na Era do Capital Humano,
Richard Crawford,
Editora Atlas, 1994